Haitianos vivem drama no Vale do Itajaí

Foto: Alexandre Zelinski

O idioma do culto da Igreja Assembleia de Deus domingo de manhã é o crioulo, a língua materna dos haitianos. Um público formado exclusivamente por peles morenas e negras participa da celebração. Não seria motivo de espanto, não fosse pela maciça adesão. Da pregação do pastor aos cantos, só se ouve a língua estrangeira. A sensação é a de estar num país distante, sem entender uma única palavra. Curioso se dar conta de que tudo isso ocorre no maior bairro de Blumenau e sede do distrito industrial da cidade, a Itoupava Central. É ali, bem perto da Vila Itoupava, sempre lembrada pelas tradições germânicas e a grande concentração de descendentes alemães, que se multiplicam os haitianos em busca de um recomeço e oportunidades no município.

O fluxo migratório de haitianos para o Brasil ganha força desde 2010, com as consequências de um terremoto que causou a morte de 300 mil pessoas no país mais pobre da América. A atuação das tropas brasileiras no Haiti aliada às notícias de bonança econômica transformaram o país em rota de refugiados. Uma das empresas responsáveis por trazer os haitianos para Blumenau é a Nathor, considerada a maior fabricante de bicicletas infantis da América Latina. A fábrica na Itoupava Central reúne 230 empregados, dos quais 45 são trabalhadores haitianos. A empresa já trouxe três grupos de 20 haitianos cada para trabalhar na cidade. A primeira vez a assistente de Recursos Humanos Bruna Lopes foi até o Acre recrutá-los. “A seleção foi feita num galpão gigante onde tinham cerca de 800 haitianos. Enquanto eu entrevistava em média cinco numa sala, os outros arremessavam documentos, implorando por um trabalho. Foi uma experiência muito forte”, relembra.

Na Nathor, os haitianos são contratados pela CLT, como no caso dos brasileiros. A empresa garante não haver discriminação. A alta rotatividade levou a empresa a buscar os trabalhadores no Norte do país. Segundo a assessora de RH, os pontos mais favoráveis dos haitianos são a fidelidade e o comprometimento. Eles não costumam faltar e também valorizam a oportunidade. Mas as dificuldades também acompanham os migrantes, especialmente no quesito comunicação. No início, o total desconhecimento do idioma português implicava em transtornos para atividades corriqueiras, como abrir uma conta bancária ou fazer exame admissional. Além da língua, eles reclamam principalmente do frio. Muitos não tinham roupas adequadas para as baixas temperaturas.

Joel Dece, 39, Jean Paul, 26 e Jean Rosier, 32, fazem parte do primeiro grupo de haitianos que chegou à empresa, em junho do ano passado. Eles enfrentaram três dias de viagem, de ônibus. As passagens foram pagas pela empresa. Com um português arranhado e vestidos com as cores do Brasil em dia de jogo da seleção na Copa do Mundo, os trabalhadores da seção de Montagem da Nathor transparecem a paixão pelo país que os recebeu. A auxiliar de cozinha da empresa, Mariza da Cruz, sentiu a mudança: “Eles comem principalmente arroz. Só não gostam de carne de porco”, conta. O principal meio de transporte dos haitianos em Blumenau é a bicicleta. O pedreiro Emanuel Faustim, 37, conduzia uma caminhonete no Haiti. Aqui, a magrela é seu transporte oficial. “E o carro dos haitianos no Brasil”, brinca. Ele mora com a mulher Alicia, numa quitinete na Itoupava Central. Os imprevistos marcam a rotina do casal. A pia do banheiro vira tanque de lavar roupas, na casa alugada.

Fonte: Portal Desacato com informações do Jornal Expressão Universitária

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