IFSC pede desculpas a ex-professor preso e demitido na Ditadura

Marcos Cardoso Filho / Foto: Lourival Bento

Depois de 36 anos, a reitoria do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) pediu desculpas publicamente pela demissão por justa causa do professor Marcos Cardoso Filho, preso durante o Regime Militar, por ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), acusado de subversão.

“Ele tinha um sonho de um país melhor, e pagou com sofrimento e tortura”, disse a reitora da instituição, Maria Clara Kaschny Schneider, depois da retratação a familiares e ex-alunos de Marcos, demitido da instituição em 1978, após sair da cadeia em liberdade condicional. “Estamos aqui para pedir desculpas, como instituição, ao que aconteceu ao professor Marcos [Cardoso Filho]. Nós acreditamos que resgatar a história e trazê-la à luz da sociedade é uma das funções da nossa instituição de educação. Temos compromisso com a verdade, compromisso com a contextualização e compromisso com a história”, declarou Maria Clara na noite desta segunda-feira (22), durante cerimônia realizada na reitoria do IFSC, em Florianópolis.

Investigação na Justiça Militar
A iniciativa de reconhecer o erro da instituição partiu de um pedido de esclarecimento da Comissão Estadual da Verdade (CEV), sobre uma sessão militar ocorrida no auditório da então Escola Técnica Federal de Santa Catarina (ETEFSC), nos dias 21 e 22 de setembro de 1976. Durante o suposto julgamento militar, o professor Marcos Cardoso Filho foi exposto aos alunos que assistiram ao tribunal militar.

A partir do pedido, uma equipe do IFSC fez uma pesquisa ao processo original da Justiça Militar, que tem 12 volumes e mais de 3 mil páginas, onde foram localizados vários registros da realização da audiência na ETFSC. O relatório das investigações foi entregue a CEV e ao Coletivo Catarinense pela Verdade, Memória e Justiça durante a solenidade.

Marcos foi preso preventivamente de novembro de 1975 a novembro de 1977. Seu julgamento foi realizado em 9 de fevereiro de 1978, condenado a três anos de prisão. Em abril daquele ano, teve a liberdade condicional autorizada. Não voltou a lecionar na Escola Técnica, de onde foi demitido em setembro, pelo então diretor Frederico Guilherme Büendgens. Manteve o vínculo de professor da UFSC até sua morte.

Homenagem e emoção
A irmã de Marcos, Tereza Cardoso, recebeu uma placa de homenagem do IFSC em nome dos familiares. No palco do auditório da reitoria da instituição, que passou a ser denominado Professor Marcos Cardoso Filho, Tereza não conteve as lágrimas ao agradecer o gesto. “É muita dor, essa lembrança de tudo. Ele lutou por um mundo melhor, onde as pessoas pudessem viver com mais liberdade. Infelizmente ele não pôde viver isso”, declarou.

Perfil
Nascido em Tubarão, em 1950, Marcos Cardoso Filho era engenheiro eletricista formado pela UFSC e começou a dar aulas no curso de Eletrotécnica da ETFSC em abril de 1973. Em 1975, passou a atuar como docente também na UFSC, no Departamento de Engenharia Elétrica – antes, no início dos anos 1970, já havia lecionado Física no Colégio de Aplicação da UFSC e no Instituto Estadual de Educação. Conforme relato de seus familiares, amigos e ex-alunos, Marcos tinha na atividade docente uma de suas grandes paixões.

Apesar de sua aptidão para as ciências exatas, Cardoso Filho também tinha forte inclinação à ciência política e militava, desde o final dos anos 1960, no então proscrito Partido Comunista Brasileiro (PCB). Foi sua atuação como militante que o levou a ser preso na Operação Barriga Verde, deflagrada pelo governo militar ditatorial da época para coibir a reorganização do PCB em Santa Catarina.

Morreu aos 33 anos num passeio de barco pela Costa da Lagoa, ao lado do único filho de quatro anos e de outras quatro pessoas, entre elas mais duas crianças. O Mastro da embarcação tocou na rede elétrica de alta tensão, causando o acidente. A causa mortis indicou que Marcos faleceu devido à descarga elétrica. Presentes no evento, vários integrantes do PCB bradaram três vezes ao final da exibição do documentário: “Camarada Marcos Cardoso, presente hoje e sempre!”.

História recontada em documentário
A equipe de comunicação IFSC produziu o documentário “História recontada: Marcos Cardoso Filho e a ditadura na Escola Técnica”, lançado durante a solenidade que homenageou o professor.

Assista aqui ao documentário

Fonte: Agência Alesc com informações da Comissão Estadual da Verdade Paulo Stuart Wright – Santa Catarina

 

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