20 anos do coquetel anti-HIV: campanhas de prevenção da Aids não podem parar

imagem-20-anos-hivDuas décadas após o surgimento da Terapia Antirretroviral Altamente Ativa (HAART), popularmente conhecida como terapia de combinação ou coquetel anti-Aids ou anti-HIV, e mundialmente divulgada no ano de 1995, é consenso entre médicos, ativistas da causa e pacientes soropositivos que o Poder Público no Brasil está desmobilizado. Principalmente no que diz respeito às campanhas de massa para a prevenção da infecção pelo vírus HIV e para o diagnóstico precoce.

Em entrevista à Adital, a médica Mônica Jacques de Moraes, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), atuando no setor de retrovirais, alerta que esses dois pontos de atuação são os mais importantes no enfrentamento da Síndrome. “Nesses 20 anos, houve uma melhoria brutal do tratamento anti-HIV. Este nome, ‘coquetel’, foi um apelido dado ao tratamento quando ele surgiu, porque era a combinação de vários comprimidos. Uma coisa difícil para o paciente. Hoje, se começa a tratar com apenas um comprimido à noite, aqui no Brasil e em vários lugares do mundo. Então, até esse apelido merece uma revisão”, contextualiza.

Ela explica que todo o avanço alcançado nas duas últimas décadas se deve a um grande investimento na ciência, com aporte da indústria farmacêutica, que financia a investigação do tema em universidades e institutos de pesquisa científica. “É uma combinação de muito investimento financeiro com a mobilização de pessoas que trabalhavam com isso”, aponta.

Mônica Jacques, entretanto, ressalva que os investimentos vêm caindo no setor. “Agora, por exemplo, uma área em que está surgindo muito resultado novo é a de hepatite”, indica. Ela explica: “o investimento em drogas não veio do governo brasileiro. O Brasil participou, mas não foi o financiador. Isso veio da parceria da indústria farmacêutica, em grande parte. E a própria indústria está, agora, desviando seu interesse, porque o tratamento já é considerado eficaz”, diz a médica.

Quanto à atuação do governo brasileiro, a diretora da SBI enfatiza que a Administração Pública já esteve mais próxima da comunidade científica, assim como dos cuidadores, pacientes e movimentos sociais. “A questão da prevenção era mais presente. Havia muito treinamento de equipes”, pontua Mônica. “Não sei se é uma orientação política ou econômica. Mas sei que é uma coisa global”.

A médica chama a atenção para a necessidade do diagnóstico e tratamento precoces. “Sendo feito isso, a pessoa pode atingir um funcionamento imunológico similar ao de quem não tem HIV. Além disso, pode ter uma expectativa de vida igual ao da população em geral”, diz. Mônica Jacques afirma que o país vivencia, hoje, um novo contexto e entra numa nova fase da convivência com o vírus, mas que não se podem desmobilizar as ações de difusão de informação para que a população se previna.

“Não é possível ter essa sensação de que o time já ganhou. Tem que continuar”, alerta. “Hoje, cerca de 40 mil pessoas são diagnosticadas com o vírus HIV a cada ano, no Brasil. E pelo menos 20% delas já estão em fase avançada”, complementa Mônica.

Embora haja a compactação dos fármacos do coquetel, a distribuição gratuita dos medicamentos, no geral, se efetive e os efeitos colaterais tenham sido suavizados, os pacientes em tratamento de HIV ainda têm várias lutas pela frente. Em entrevista à Adital, Vando Oliveira, coordenador regional no Estado do Ceará da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP Brasil) aponta que uma delas advém da chamada lipodistrofia, que é o desequilíbrio da distribuição de gordura pelo corpo, causada pelo uso continuado das substâncias do tratamento antirretroviral.

Segundo ele, em 2010, foi aprovado, por meio de uma portaria do Ministério da Saúde, que seria ofertada cirurgia para reparos estéticos aos pacientes que sofressem desse efeito adverso. Através do procedimento, hospitais credenciados em todo o país deveriam oferecer, gratuitamente, o serviço médico aos soropositivos com recursos do Estado. Mas há um porém: “infelizmente, nossos governadores ainda não prepararam ambulatórios para fazerem esses atendimentos”, ressalva Vando.

Não basta ter uma portaria. É preciso haver vontade governamental para executar. Esta é uma deficiência em quase todos os estados do Brasil”, critica o ativista. “Vendeu-se a ideia, por parte dos gestores, de que, pelo fato de haver medicação, os grandes problemas da Aids estariam resolvidos. Ela tem remédio, mas não tem cura”, adverte Vando. “Houve um relaxamento por parte do governo para realizar campanhas informativas. Esta é uma reivindicação dos movimentos sociais”, aponta.

A nova geração de jovens, que nasceu nos anos 1990 ou início dos anos 2000, por exemplo, não vivenciou o início da epidemia no Brasil e no mundo. Para Vando, eles são um dos grupos essenciais que precisam ser envolvidos nesse tipo de campanha, conhecendo os riscos de infecção e contendo o alastramento da síndrome pela população. “Por mais que o Ministério da Saúde diga que é uma epidemia controlada, ela não é”, alerta o coordenador da RNP.

Fonte: Portal de Notícias Adital

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