Morte de adolescente no Paraná reforça discurso de ódio contra movimento secundarista

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Foto: Gibran Mendes

A morte do adolescente Lucas Eduardo Araújo Mota, de 16 anos, na última segunda-feira (24), em Curitiba, fortaleceu o discurso de ódio e intolerância contra as cerca de 850 ocupações protagonizadas pelo movimento secundarista no Paraná.

Mesmo antes das informações sobre a morte do jovem serem apuradas, manifestações pela reintegração de posse das escolas começaram a se proliferar pelas redes sociais a partir da repercussão de falas e opiniões de articulistas e militantes da direita. No início da tarde, o líder do Movimento Brasil Livre (MBL), Kim Kataguiri, publicou um vídeo no Facebook dirigido ao governador Beto Richa (PSDB), exigindo “imediatamente” a desocupação das escolas.

O colunista da Revista Veja, Reinaldo Azevedo, culpou o movimento secundarista, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná, partidos de esquerda, o Ministério Público e até conselheiros tutelares pela morte do rapaz.

As ocupações, que iniciaram no dia 3 de outubro na Região Metropolitana de Curitiba e se espalharam por todo o estado, denunciam as reformas no ensino médio anunciadas pelo governo de Michel Temer (PMDB) por meio de medida provisória e a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241, que congela investimentos públicos em Saúde e Educação durante os próximos 20 anos.

Tragédia
Lucas Eduardo Araújo Mota foi encontrado morto nas dependências do Colégio Estadual Santa Felicidade, Safel, no bairro Santa Felicidade, em Curitiba. A Secretaria de Estado da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná (Sesp) confirmou o fato por volta das 16h.  De acordo com informações da Polícia Militar, o adolescente teria sido assassinado com facadas no pescoço e no tórax.

A informação fornecida pelo Corpo de Bombeiros foi a de que a vítima morreu por ferimentos causados por arma branca. O suposto autor do crime, conforme indicou o secretário de Segurança do Paraná, Wagner Mesquita, tem 17 anos e também é aluno da escola. Os colegas teriam se desentendido após consumo de “droga sintética”.

Durante a tarde, o movimento Ocupa Paraná, composto por secundaristas, se manifestou por meio de nota, comunicando que ainda não havia informações concretas. “Também nenhuma informação foi repassada aos mais de 10 advogados do movimento que estão proibidos de entrar no local para dar suporte aos outros estudantes da ocupação que estão lá dentro com a polícia civil”, disse o texto, por volta das 16h45.

O advogado Paulo Lenzi, da articulação Advogados pela Democracia, confirmou que os advogados presentes no local foram impedidos de entrar na escola pela Polícia Militar. “Assim que chegou o delegado da Delegacia de Homicídios, ele nos barrou novamente. Foi mais de uma hora de discussão para tentar garantir o direito dos menores que estavam sendo interrogados no fundo da escola, conforme nos informou uma aluna que solicitou nossa presença”, afirma Lenzi.

De acordo com o advogado, quando o corpo estava prestes a ser retirado do local, a polícia permitiu a entrada de uma advogada. “Se o delegado se pautar apenas pelos depoimentos sem a presença dos advogados, eles serão nulos. A presença do advogado é garantida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, pela Constituição e pelo Código Penal”, explica.

Resistência
A professora de língua portuguesa Loren Reck, que visitou três vezes a ocupação, declarou que os estudantes do Safel estavam dando um exemplo de cidadania. “Eles estavam plantando flores no jardim, a comunidade estava ajudando. Não entrava ninguém na escola sem autorização”, conta. Para ela, o incidente é inexplicável.

“Não havia nada de errado nas ocupações. Os estudantes estão dentro da lei, no direito deles. Mas percebemos de ontem para hoje que os alunos contrários às ocupações começaram a se rebelar e se inflamaram. Ninguém entendeu”, descreve Reck sobre o clima de tensão.

Após o caso, o governador do Paraná, Beto Richa (PSDB) que já vinha incentivando as desocupações das escolas pelo estado, mesmo sem mandado judicial, reforçou a exigência à Justiça.

Em entrevista a rede de Jornalistas Livres, a professora da UFPR, Camila, que daria uma oficina no Colégio Safel na terça-feira (25), conta que, apesar do clima de colaboração e de luta, os estudantes relataram que estavam organizando atividade durante a semana para resistir aos ataques e o medo que vinham sofrendo.

“Ontem teve gente que entrou na escola e eles se trancaram nos dormitórios até a pessoa ir embora. E também houve um carro que rondou a escola durante a tarde. Então eles estavam num clima de tensão, com pressão da direção da escola para a desocupação”, descreve.

Outras escolas também sofreram episódios de repressão e tentativas de desocupações por pais, professores, alunos contrários e também integrantes de movimentos da direita, como o MBL. Um exemplo foi o Colégio Estadual Professor Guido Arzua, do Bairro Novo região Sul de Curitiba.

“Estouraram o cadeado, arrancaram o portão inteiro e vieram para cima da porta de vidro. Nisso, dois estudantes pularam um portão lateral, quebraram duas janelas do refeitório e entraram para abrir portas de dentro para fora”, relata uma das estudantes organizadoras da ocupação.

No fim da tarde, após assembleia dos estudantes realizada no Colégio Estadual do Paraná (CEP), o movimento Ocupa Paraná publicou outra nota de solidariedade à famílias do estudante Lucas Mota e contra o crescimento da onda de ódio e intolerância.

“Apesar das diversas correntes de ódio que tomaram conta do estado no dia de hoje, nós do movimento Ocupa Paraná não queremos e nem vamos culpabilizar ninguém pelo acontecido. Neste momento queremos apenas prestar solidariedade à família de Lucas, família que perde um dos seus para o ódio, para a intolerância e para a violência”, diz o texto.

Fonte: Brasil de Fato

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